Com a crescente digitalização do mundo, estamos mais rodeados do que nunca por ecrãs. A relação que estabelecemos com as imagens é maioritariamente mediada por estes dispositivos, que nos expõem a fluxos ininterruptos de massas de pixeis impossíveis de assimilar. A cultura visual entrou numa fase em que são os computadores e não os humanos a processar, seleccionar, armazenar, arquivar e distribuir imagens.
Uma imagem em circulação entre media e contextos é transformada por diferentes linguagens visuais, softwares, enquadramentos num ecrã, instalação no espaço expositivo, entre outros factores. As imagens estão em constante transformação, reescrita, reedição e reprogramação enquanto circulam através desses contextos – e a cada passo são visualmente alteradas. Partindo de um único conjunto de imagens, a multiplicidade de representações possíveis é praticamente ilimitada.
O presente trabalho foi concebido tendo como base um sistema de vídeo-porteiro, que [re]produz imagens monocromáticas de enquadramento fixo, em tempo real, num intervalo de visualização pré-definido. A partir do estudo exaustivo destas imagens, pretendeu-se abordar questões relacionadas com o suporte e a sua materialidade e com a constelação formada pelo trinómio tomador de imagem-máquina-motivo.
As imagens deste projecto surgem na interdependência entre meios. Estes são muitas vezes formados por uma combinação de tecnologias: umas que reproduzem imagens, outras que as produzem e outras ainda que as interpretam e/ou transformam. Os meios de produção e os meios de apresentação escolhidos reforçam a ideia de permanente mediação tecnológica.
Há uma «dança» entre arte, tecnologia e ciência, que é aqui explorada para revelar, não só imagens e a sua visualidade, mas também a materialidade dos suportes e a presença dos aparatos.


sinais contínuos, 2019
vídeo monocanal
[4K, 16:9, cor, s/ som]
loop
Mock-up de instalação
Obra apresentada na playlist#42 do projecto PLAYLIST — Programa de Videoarte Portuguesa, com curadoria de Nuno Ramalho, no Café Candelabro, Porto, Portugal [2020].
Se uma fotografia capta um momento retirado de uma série de acontecimentos, por oposição, um vídeo tem a capacidade de registar a totalidade das imagens geradas no decurso desses acontecimentos.
No contexto desta obra, a escolha do meio parte deste pressuposto: nas imagens em movimento que capta, o vídeo acumula um fluxo de imagens fixas sequenciais que o olho não permite individualizar.
Através do seu registo, pretende-se conferir permanência a estas imagens transitórias reproduzidas no ecrã de vídeo-vigilância, dando-lhes uma existência que ultrapassa a função, o tempo e o lugar a que estavam anteriormente circunscritas.
Despojadas da sua carga meramente utilitária, estas imagens [em tempo real e de enquadramento fixo] reflectem acções ausentes, sem sentido ou finalidade explícitos. Ao não retratar qualquer situação, o espaço nelas contido perde a sua materialidade. Nesta negação da acção e da narrativa, o que se mostra é então apresentado como a imagem em si. O único «acontecimento» é exterior a ela e manifesta-se na tarefa infinita de activar periodicamente o ecrã. Há um loop infindável que se cria, no qual a mesma imagem está constantemente a ser redesenhada.
A tudo isto não é alheia a evidente obsolescência do aparato. É nela e nas mutações que induz que está o foco gerador de interesse pelas imagens. As distorções criadas são um suplemento que se cola à imagem e que transforma, de forma aleatória, cada fotograma, estendendo indefinidamente as possibilidades de representação de um mesmo sujeito.
Esta sobreposição da visualidade em relação à cena e ao sujeito, está assente na gramática visual produzida pelo próprio aparato e na forma como esta integra a estrutura das imagens. A forma sublinhada como o ecrã marca presença, força a tomada de consciência da sua acção efectiva sobre a realidade física da reprodução. Há uma visível perda de estabilidade das imagens, cuja cadência deixa antever um processo degenerativo em curso. Ao deixarem de reproduzir uma realidade, estas passam a representar estímulos visuais transmitidos electronicamente.


pontos de acumulação, 2020
instalação de vídeo multicanal
[5 canais, 4:3, cor, s/ som]
loop de 30’’
Mock-up de instalação
Uma longa exposição pressupõe que uma única fotografia pode registar uma sequência de acontecimentos e encerrar em si muitas imagens. Partindo desta definição, aventou-se a possibilidade de o recurso a longas exposições trazer à visibilidade o espaço que a câmara incorporada no vídeo-porteiro localiza. Esta tentativa de reconstituição pretendia reverter as transformações destrutivas impressas nas imagens, atenuando os efeitos decorrentes das características operacionais e do desgaste do uso do dispositivo nelas impressos.
No desenvolvimento exploratório, esta hipótese inicial foi abandonada em detrimento do processo, passando o interesse a estar focado nas características operacionais do software usado para captar estas longas exposições. Este permite visualizar a acumulação de imagens ao longo de um período de tempo pré-determinado. Quando se activa o ecrã, pressionando o botão do sistema intercomunicador, este, por questões funcionais, mantém-se ligado apenas por um período de 30 segundos, sendo também este o tempo de cada vídeo da sequência. O que observamos nestas imagens em movimento é a materialização de
um gesto processual. O acontecimento, a acção representada, é auto-referencial.

shot noise, 2020
vídeo monocanal
[full HD, 16:9, cor, som]
2’11”
Mock-up de instalação
Obra apresentada na exposição colectiva fora inverno, já era primavera, o verão seria glorioso, com curadoria de José Maia e João Terras, realizada online pelo Espaço Mira, no Porto, Portugal [2020].
Os meios de transmissão de imagem e som de que dispomos estão a dominar a nossa ligação com o exterior. Vivemos na sociedade da hiper-comunicação, uma nova era marcada pela facilidade e rapidez de disseminação de conteúdos, da qual resulta um paradoxo: a prevalência do excesso de ruído nas comunicações, decorrente da quantidade colossal de informação disponível.
Esta saturação de informação é aqui materializada numa série de imagens fotográficas do ecrã do sistema de videovigilância em estudo neste projecto, a que foi intencionalmente amplificado o ruído digital no processo de captação. Destituídas do seu sentido de realidade e dispostas numa sequência uniformizada, transformam-se num conjunto indiferenciável, neutro, de leitura impercetível. O som, inexpressivo, composto pelo ruído electrónico do dispositivo de captação, cria, juntamente com o contínuo de imagens, uma ideia de
registo codificado, que evidencia a dificuldade com que nos debatemos em absorver e interpretar o fluxo avassalador de imagens com que somos bombardeados diariamente.


conjunto contínuo, 2020
vídeo monocanal para projeção em grande escala
[full HD, 16:9, cor, s/ som]
loop
Mock-up de instalação
É com base em fotogramas retirados dos vídeos apropriados do intercomunicador, que se parte para o aprofundamento do estudo das possibilidades de representação. Este surge aliado à questão da variabilidade a que uma mesma imagem está sujeita quando apresentada em diferentes media, sejam eles físicos ou tecnológicos. Na transição, quando deixam de ser formadas por pixeis num ecrã, as imagens passam a constituir-se também dos materiais usados na impressão. Seja pelas propriedades da tinta, pelas características estruturais do suporte ou pela interacção de ambos, há uma materialidade anteriormente ausente que se lhes soma.
A noção de materialidade é, aqui, enfatizada pela reprodução impressa dos fotogramas anteriores em suporte transparente, que remete para o negativo fotográfico. Cada imagem é fragmentada em segmentos
equivalentes às usuais tiras de película cortadas a partir de um rolo. Estas «novas» imagens são processadas num digitalizador de negativos, instrumento que as «projecta» para dentro de um computador, onde são sujeitas a um conjunto de transformações destrutivas levadas a cabo por manipulação do software. O esvaziamento do motivo [e do sentido] é quase total nas imagens geradas nos interstícios deste sistema digital. Resta apenas uma superfície de luminosidade agressiva e nitidez aguda. É o retorno da imagem ao seu estado puro, distinta e praticamente independente do mundo.
Para reforçar a ideia de circularidade patente ao longo do trabalho, é restituído movimento às imagens no seu formato processado, fechando-se assim este ciclo. Tendo em conta que a percepção se altera em função do movimento instituído, ao ser estabelecido um fluxo sequencial de imagens, a visualidade pura desaparece.
A velocidade de leitura das imagens é a essência deste projecto. A passagem lenta de fotogramas sucessivos quase idênticos cria a ilusão de continuum: uma amálgama indiferenciável e neutra. Contudo, qualquer tentativa de capturar um fotograma, dará sempre origem a uma imagem diferente das anteriores. A ideia de infinidade é reforçada por esta possibilidade de, a partir de qualquer pedaço do continuum, ser possível construir novas imagens e acrescentá-las, como num loop infinito.


paralaxe, 2020
vídeo em estereoscopia para visualização com recurso a óculos de realidade virtual
[Full HD, 16:9, cor, som]
loop
Mock-up do dispositivo de visualização estereoscópica
As imagens microscópicas criadas para este trabalho e apresentadas sob a forma de vídeo, inserem-se numa categoria de invisibilidade aparente. A sua «desocultação» só é possível pela utilização integrada de tecnologias: a lente da câmara apontada à ocular do microscópio faz a leitura de pequenos fragmentos. A segmentação progressiva e a crescente miniaturização do sujeito no decurso do projecto têm aqui o seu apogeu: são «analisados» detalhes ínfimos de reproduções de imagens obtidas na etapa imediatamente anterior do trabalho.
O carácter abstratizante das imagens geradas, conferido pela aproximação radical ao assunto, permite que os seus segmentos se autonomizem da origem, ganhando vida própria. A ampliação não confere apenas mais nitidez aos elementos menos perceptíveis da imagem, cria novas formulações do objecto.
A introdução de movimento nas imagens cria a percepção da existência de diferentes planos, pois evidencia as múltiplas camadas que as compõem. Estas camadas formam-se na transição do digital para o físico. As imagens, uma vez retiradas do sistema em que foram produzidas – o computador –, sofrem um processo de mutação resultante da integração de novos componentes: tinta e suporte. Há uma tomada de consciência da superfície.
As acções de foque e desfoque que animam as imagens no vídeo, além de revelarem uma estratificação, sugerem a presença do aparato, sendo, em simultâneo, evocativas da prática fotográfica. A utilização do binómio câmara-microscópio tem um cunho reconhecidamente científico, por tradição estranho ao campo
artístico. A marcação da distância com a ciência é, aqui, garantida pela modificação do enquadramento circular característico da microscopia; numa tentativa de descolar ou aliviar o pendor científico das imagens, o formato circular é transposto para um formato normalizado de vídeo. Porém, não é possível anular a omnipresença desta ligação; é bastante evidente a sobreposição de arte e ciência existente nas imagens.